4 de maio de 2020

Ao vivo & a cores, Luciano, da Erasy!


Luciano Penelu, da banda Erasy, comenta um pouco sobre o momento atual e o novo álbum, que será lançado digitalmente no próximo dia 22 de maio. Doom on!




Concluímos as gravações do nosso novo disco no final do ano passado. Já contávamos com as dificuldades triviais da cena: distribuição, lançamento, etc. Tínhamos uma data para tocar em Salvador no começo de Abril. Uma data em Maio em Feira, com Nervochaos. Cogitávamos uma mini tour de lançamento, negociávamos umas datas em São Paulo para o meio do ano. Seguíamos planejando.

Então, veio a pandemia. E veio avassaladora. Tudo ficou em suspensão e passamos a buscar maneiras de prosseguir com o lançamento - afinal, o disco está pronto, e ficar com ele engavetado não nos pareceu uma boa ideia. Decidimos lançar digitalmente, e já temos uma data: 22 de maio. O lançamento físico deve ocorrer no segundo semestre, e sairá por quatro selos, baianos e nacionais.

Tocar ao vivo, e mesmo ensaiar, parece agora uma realidade muito distante. Como ninguém tem certeza de nada, não estamos fazendo planos neste sentido. Esperamos, sim, que tudo isto passe, e que a vida (e o underground é parte substancial de nossas vidas) retome um curso mais ou menos normal o quanto antes.

Nosso novo disco, “Some nice flowers”, foi composto e gravado com muito esmero. Chegamos ao peso e à visceralidade que gostaríamos de atingir, e contamos com o apoio e o profissionalismo de André T para tanto. A experiência de gravar com ele, de discutir timbres e sonoridades e de utilizar algo do seu incrível conhecimento musical foi ímpar e engrandecedora. Contamos também com a participação de Edmar Oliveira da The Crypt em uma das faixas do disco, e essa também foi uma ótima experiência.

As composições deste disco falam da existência humana, de como ela pode ser vista por ângulos diferentes a depender do observador, de como ela pode ser terrível e bela ao mesmo tempo, um fardo ou uma dádiva, obra do acaso ou do destino. A arte do disco ficou a cargo do grande Alcides Burn, que conseguiu capturar muito bem as referências que utilizamos.

Agora, o foco é lançar o disco e, assim que possível, voltar a ensaiar e preparar um show de lançamento impactante. O disco, para mim, é um marco na nossa trajetória, e, ao vivo, deverá ser executado da mesma maneira, visceral e intenso.  Por enquanto, é tentar conter a ansiedade. Sigamos pelo caminho da perdição, enquanto é possível!

The show must go on and on - II

Parte Dois


"Evita o mundo, é só um montão de pó e lixo que afinal não significa nada." Jack Kerouac


Sim, o show tinha que continuar, mas as primeiras linhas no diário, apesar de conterem o clichê animado de “adeus Ano Velho, feliz Ano Novo!”, não representariam o meu ano de 1992Estava entendiada e apática ao mundo. O verão de 1992 começava com o tempo nublado pra mim, era sonhadora e com uma inquietação interior que tinha na porta do quarto, o óbice, e o meu corpo já se prostrava feito um cadáver. 

Só anos mais tarde entenderia a magnitude daquele ano e o viveria ao vivo e a cores. 30 de junho, não fui pra aula e passei o dia gravando fitas cassetes para minhas amigas. Enquanto isso, a banda alemã Blind Guardian lançava o “Somewhere Far Beyond”, quarto álbum de estúdio. Acredito que os tenha ouvido pela primeira vez em 95-96, com o  lançamento do "Imaginations From The Other Side". A banda tocou no ano de 1998 em Recife - PE, e eu não fui, mas enviei, através de amigos que foram, a edição em papel do Words of Metal Zine, que trazia uma resenha sobre a discografia da banda, escrita pelo amigo Antônio Melo. Em resposta de agradecimento, a banda teve o cuidado de enviar-me um cartão-postal da Argentina, que guardo com muito respeito e carinho:





Obituary lançava o álbum “The End Complete” na data de 22 de abril. Aqui no Brasil, a TV Bandeirantes transmitia o Tributo a Freddie Mercury, com o qual eu iniciaria a data assistindo. Vi duas vezes o Obituary, uma no W.O.A (2005) e outra em Salvador-BA, minha terra natal, onde dividiram o palco com a banda baiana Malefactor. Falar no Obituary e nesse álbum, eu associo imediatamente ao baterista da banda Carnified, Vicente Azevedo, meu amigo e compadre! 

11 de maio. Comecei o dia, ainda noite, vendo filme na TV, e cheguei ao seu final, recebendo notícias de turnê da banda Headhunter DC por telefone. Poderia ter acrescentado ao dia a leitura de "Childhood's End", de Arthur C. Clarke, antecipando a música título desse livro que constaria no álbum de estúdio lançado nesta data, “Fear of the Dark”, pelo Iron Maiden. Como já comentado em outro relato, apesar da saída de Bruce Dickinson da banda após a turnê, com o seu retorno em 1999, pude vê-los com Dickinson, ao vivo e a cores, em 2001, no "Rock In Rio" (Rio de Janeiro - RJ). O Iron Maiden foi a banda-motivo para eu viajar com 18 anos para São Paulo, para o festival "Monsters Of Rock", em 1996. Foi quem abriu as portas para um futuro repleto de shows na minha agenda pessoal: eu podia ainda ver as bandas que gosto, estava em tempo! 


22 de maio, dois dias após o meu aniversário, o My Dying Bride lançava o seu primeiro álbum, “As The Flowers Withers”.  Lembro-me de quando ouvi, da sensação de novidade, do nome diferente da banda, da capa, do início perturbador e sombrio do lado A, do peso e da música "Sear Me", que ficaria sendo recolocada para ouvir, sem preguiça alguma de me levantar da cama e reposicionar a agulha para o seu início. 16 anos depois, viajei para a Espanha, para ver, ao vivo e a cores, o My Dying Bride (Festival Atarfe). Conheci o vocalista Aaron Stainthorpe e o guitarrista Andrew Craighan e fiz questão de dizer: "vim do Brasil para vê-los tocar." Cinco anos depois, eu viajaria para a Argentina para mais um show deles, numa casa pequena, uma experiência única que uniu a hospitalidade de Buenos Aires e a beleza da Patagônia Argentina à trilha sonora do MDB. Senti-me realizada.


Com amigos headbangers e a banda Monstrosity.

Megadeth, eu mal havia sido apresentada à discografia excepcional da banda, e esta mudava a sua linha sonora, mas ainda me agradava, com o álbum "Countdown to Extinction" (14/07/1992). Vi a banda apresentar-se no "Monsters of Rock", 1998, em São Paulo - SP. Gostei mais do show deles, de abertura para a banda Black Sabbath, em 2013. O grupo Monstrosity apresentava-nos o “Imperial Doom”. Esse álbum, eu ouvi pela primeira vez na loja Blood, indicação de Cezinha, dono. Todos os ouvidos direcionados para a monstruosidade que era o baterista Lee Harrison! Do álbum levado para casa à viagem para Recife-PE para vê-los, ao vivo e a cores. 

Da Holanda, o grupo Gorefest lançava "False". 15 de outubro de 1992, uma quinta -feira, no diário, palavras empoeiradas numa página já amarelada, sem nenhuma recordação que represente algo de substancial. Sei que ouvi muito esse álbum e tive a oportunidade de vê-los no Wacken Open Air (W.O.A.), em 2005, exatamente no ano em que se reuniram para retornar aos palcos. Em 1992, mal sabia que me tornaria ouvinte assídua desse disco, nem muito menos que, 13 anos depois, estaria cantando e batendo cabeça ao seu som, em terras alemãs. O Gorefest, com um visual diferente - dark, um show curto e de dia, mas muito bom. Sobre o "False", Jan-Chris (vocalista/baixista) comentou numa entrevista "tudo o que eu sempre sonhei! Tudo se encaixou nesse álbum, nas músicas, na produção, na vibe da banda e em um novo selo, o então relativamente pequeno Nuclear Blast." Fato.

E Vital Remains – “Let Us Pray”. Recentemente, conversando em chat com Luiz Lozano, ele disse: "todos comentavam que você tinha o adorado 'Let Us Pray' em CD... Acho que, na época, você foi a única a ter esse material nesse formato." Era difícil arranjar material, muito diferente do universo de downloads proporcionado pela Internet. Desses petardos lançados em 1992, outros grandes álbuns ainda estavam por chegar ao nosso conhecimento, às prateleiras, aos nossos ouvidos. 

Na cena underground, fora das mídias disponíveis que falavam sobre Heavy Metal, já havia desperto em mim um interesse mais "jornalístico" sobre as bandas locais e o cenário em si, e, assim, vinha fazendo clipping sem nem saber o que era isso e que estava fazendo... Àquela altura, já era assinante da revista Rock Brigade, e comprava outras revistas em bancas também. Não tinha acesso a fanzines, mas conheci um rapaz, Samuel, que possuía alguns exemplares e foi assim que tive o meu primeiro contato com aquele formato mais artesanal. Sem a Internet, era tudo diferente. Ficava sabendo das coisas no contato pessoal, nas lojas undergrounds - que serviam como point de encontros fora dos shows, e através dos jornais em papel, das revistas e dos fanzines, um ou outro programa na televisão e MTV - para quem tinha acesso, que não era o meu caso, a não ser por gravações em fitas VHS. Nada de notícias atualizadas em tempo real. E como demoravam, a expectativa e a novidade tinham um impacto maior também.   


Acompanhei o Hollywood Rock pela televisão.
Acervo Folha de São Paulo / 1992. 

A tribo urbana dos “metaleiros” foi o meu ticket de transição infanto-juvenil. Percebia a tribo na qual estava inserida, tinha um olhar próprio sobre ela, e entendia que não era um estilo de música para todos os ouvidos... E sei que, talvez, a cena undeground, nem fosse para mim: eu morava num bairro nobre e estudava em escola particular, meu pai levava-me para os shows na porta, era menina e obesa. Contudo, nada me impediu de seguir trilhando o meu caminho sempre em busca de shows. Travava uma luta interna e externa com conhecimento musical e postura do que eu entendia ser uma “metaleira”, o que acabou falando mais alto do que o meu gênero em si - a cena era composta mais pelo público masculino.

E, sim, um feliz ano velho, visto que nada de novo aconteceu sob o meu sol soteropolitano em 1992. Talvez a terapia que fiz por uns meses, o fato de eu ter largado os estudos no segundo semestre; de, apesar da pouca idade, já frequentar, ainda que esporadicamente, bares e consumir bebidas alcoólicas, e o meu primeiro showNa escola, entrei para a turma do fundão: com o fone do walkman e munida de fitas cassetes, desligava-me da sala de aulaUm início de ano apático, sombrio e, no terceiro mês, iniciado o outono, próximo de fazer 14 anos, tive a minha primeira experiência negativa com o consumo de álcool, e uma bela ressaca no dia seguinte... Apesar da decepção familiar e de ter sido vista pelas mães das amigas como má influência, sobrevivi, sobrevivemos... Cristiane F. assustáva-nos com a sua autobiografia. As drogas lícitas eram uma forma de transgressão, de autoafirmação, de identificação, de diversão. O Rock, a forma de expressão. A terapia, uma tentativa de agradar os pais. E os estudos, adolescer estava sendo uma fase de conflitos, repleta de paixões, descobertas e recolhimento.

Se o ano começava “ressaqueado”, terminaria o ano lamentando por não ter podido ir ver o “Fear of the Dark Tour” e pedindo licença, na véspera do Natal, aos familiares que se encontravam na minha casa para ir para um show. E assim fui “escoltada” até a porta do evento pelo meu irmão e primos, para o que considero ter sido o meu primeiro show underground: “Natal na Kripton”. Arrisco dizer que meu irmão já não se interessava mais por shows de Rock e, como o meu gosto musical definiu-se mais para um som pesado, houve esse distanciamento entre nós e meus primos também... Isso só veio a fortalecer a amizade com pessoas de interesse musical em comum.



Naquele ano, na Concha Acústica, marquei presença na homenagem a Raul Seixas, no evento “O Baú do Raul”, com apresentações de Marcelo Nova, Os Panteras, Sérgio Sampaio, Metamorfose Ambulante e Doctor No (10/10/92). Também vi, ao vivo e a cores, o inusitado evento que reuniu Maurício Matar na mesma noite que o Diário Oficial e o Titâs, no Clube Bahiano de Tênis (12/12/92). Fui a um show no Bambata (21/11), onde tocaram bandas selecionadas de mostra de Som de algum colégio, Úteros em Fúria e banda Bizz; evento este em que conheci Maurão, vocalista da Úteros e Leo Barzi, baixista da Mercy Killing. Vi também Úteros em Fúria e Strangers, na Kripton (26/11/92). 



A cidade do Rio de Janeiro sediava a “Eco – 92”, chamando a atenção de todos nós para as questões ambientais. No Estado de São Paulo, o “Massacre do Carandiru” e o assassinato da atriz Daniella Perez horrorizavam-nos pela violência. Na política, Fernando Collor de Mello fazia-nos o favor de renunciar à Presidência da República ainda com o processo de impeachment em andamento, e o seu vice, Itamar Franco assumia o cargo.

“Adeus Ano Velho, feliz Ano Novo”, esse ditado ficara engasgado na folha de papel do primeiro dia, e, no do ano seguinte, deleitava-me era com o “Feliz Ano Velho”, lido em menos de 24h. “Meu futuro é uma quantidade infinita de incertezas.” O de todos nós, Marcelo...