30 de julho de 2019

Hoje é o passado do futuro

 Whitesnake, 1978.
Whitesnake, 1978.
1978. Ano de mudanças no quadro político nacional, porém ainda sob a édge da Ditadura Militar. Findava o governo de Ernesto Geisel, quem deu início a um, ainda que lento, processo de redemocratização. O cinema nacional e internacional produzia filmes que seriam futuros clássicos e grandes campeões de bilheteria. Na música, bandas que entrariam para a história, seguiam em turnê, gravavam álbuns e nasciam, como Anvil e Whitesnake.

Presidia a República, Ernesto Geisel. Contrariando a linha-dura do regime militar, enviou uma emenda ao Congresso para acabar com o AI-5, que veio a ser extinto na data de 13 de outubro. O seu sucessor, pela via indireta, último presidente eleito, foi João Figueiredo, ficando no cargo até 1985. Dando sequência à aberta política, assinou o decreto que revogou o banimento de 122 brasileiros e extinguiu a Comissão Geral de Investigações.

Na produção cultural cinematográfica¹ internacional, John Travolta e Olivia Newton-John consagravam-se em "Grease". "Halloween", de John Carpenter, aterrorizava com o personagem Michael Myers. Em cartaz também estava "O Expresso da Meia-Noite", de Alan Parker, o qual vi (em 1985/86) na casa da minha vizinha, à convite dos pais dela: "um clássico." E "Superman", de Richard Donner, com Christopher Reeve, Marlon Brando e Gene Hackman. Esse eu vi em casa quando passou na televisão, com a minha família: um marco!


Cartaz promocional do filme
"Os Saltimbancos Trapalhões."
O cinema brasileiro chegou a produzir 100 filmes em 1978². Destes, um modelar, no universo infatil, que fez parte também da minha infância oitentista, provocador de um saudosismo audiovisual e sentimental, "Os Saltimbancos Trapalhões", de Adriano Stuart.

No jornal da Folha de SP, 30 de dezembro, Nei Duclós, jornalista, expressava-se sobre a música: "existe rock'n'roll, porque existem os Rolling Stones." Considerando o ano de 1978, "um ano pobre" musicalmente, ditou:


"Para dar sorte em 79: que seja melhor, que a discotheque morra, que renasça o melhor do rock, que nos proporcione, no seu final, uma lista mais extensa, mais bonita. Que esta década, época de aprofundamento e de contenção, não termine melancolicamente."



A lista até podia não ser tão extensa mesmo, mas, dentro do que eu gosto, já era épica! O cenário musical também estava sendo montado com a banda Judas Priest em turnê do seu quarto álbum de estúdio - "Stained Class" (de janeiro a agosto),Stained Class Tour. De outubro a novembro, saíram em nova turnê - X Certificate Tour, do novo álbum - "Killing Machine" ou "Hell Bent for Leather". Ozzy Osbourne, por sua vez, entrava em estúdio para gravar o seu último álbum com o Black Sabbath, "Never Say Die!". O Whitesnake estreiava com o álbum "Trouble". Anos mais tarde, pude ver todas essas bandas, ao vivo e a cores. Nas rádios, estavam na lista das mais tocadas: "Whole Lotta Rosie", do AC/DC, e "Dust in the Wind", Kansas. 

"Hoje é o passado do futuro³." Respirava já, em terras soteropolitanas, os ares do movimento de transformação social. O futuro prometia ser bom, pelo menos, não mais, como era antigamente. Nasci num sábado à noite, neste ano de 1978.


Fontes:

¹Wikipédia. "1978 no cinema", visitado no dia 25 de julho de 2019.
² "Cultural audiovisual e arte contemporânea", visitado no dia 25 de julho de 2019. 
³ Letra da música "A Lâmpada De Edison", Joelho de Porco.


Dicas de leitura:

1. "Comissão de investigação arquivou denúncias contra amigos do regime, mas devassou contas de opositores", por Guilherme Amado, publicado em 16/03/2014; visitado no dia 25 de julho de 2019.

2. "A corrupção durante o regime militar", por Fabio Sasaki, publicado em 30 maio 2018; visitado no dia 25 de julho de 2019.

3. "Ernesto Geisel, o ‘pai da distensão lenta, gradual e segura’ da ditadura militar", por Natasha Correa Lima, publicado em  08/09/16; visitado no dia 25 de julho de 2019.

4. "Último presidente da ditadura, João Figueiredo foi a ponte para a democracia", por Frima Santos, publicado em 03/01/18,  visitado no dia 25 de julho de 2019

5. Joelho de Porco e Didi Mocó. Filipe Albuquerque, visitado no dia 25 de julho de 2019.

29 de julho de 2019

Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?

A rádio teve uma importância muito grande no contexto do golpe de 1964 e do regime militar. Foi através desse veículo, por exemplo, que as pessoas ficaram sabendo da movimentação das tropas militares e foi por ele também que o deputado Rubens Paiva fez um discurso pedindo que as pessoas resistissem ao golpe. E houve resistência contra a ditadura, com um manifesto do líder da Ação Libertadora Nacional, Carlos Marighella, transmitido pela Rádio Nacional, após a invasão dos estúdios por um grupo de guerrilheiros. Nos anos 1970, vieram as rádios FM¹.

This is the cover art for "Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?" by the Ramones. The cover art copyright is believed to belong to the label,"Sire Records", or the graphic artist(s). Wikipedia.



Essa época seguinte, das rádios FM, nos anos 80 e 90, acompanhava o Rock "Nacional e Internacional", e até Heavy Metal, pelas ondas sonoras. Era o que tinha disponível à época; até hoje, segue como um meio (em Salvador) silencioso quanto à cena local, com raras exceções, raros momentos de integração sonora. Nos anos 80, a rádio era o meio que proporcionava o conhecimento pessoal de músicas, eu consumia o que era ali transmitido. Desse contato, à aquisição de vinis (eu seguia ainda muito restrita, enquanto consumidora, ao que meu irmão adquiria). Acontecia, também, de algumas músicas não "saírem" do rádio pra mim, como a de uma banda de Rock, aqui da Bahia, que nunca fui para um show ou tive material – Utopia. E isso não aconteceu só com ela. Vim a conhecer o nome de músicas e de suas respectivas bandas com o advento da Internet. O perfil consumista voltado para esse setor veio se firmar só mais tarde, na adolescência, mas sem influência radiofônica: revistas, lojas de música especializadas e amigos passaram a ser referência. O que eu era mesmo era uma boa ouvinte até então.

Gravações em fitas k7
do programa "Let´s Rock", 92/93.
Nessa época oitentista, tinha uma estação de rádio que, se não me falha a memória, era a "96", e era a mais rocker de Salvador. Depois, ela foi perdendo espaço (no meu gosto, por mudança de estilo, assim me recordo). Nos anos 90, surgiu a Rádio Transamérica e “Let´s Rock” era um programa de Marcelo Nova que eu sintonizava, munida de fita cassete, para gravar entrevistas e/ou músicas que me interessavam. Na segunda fase dessa década, adentrando o século seguinte, outro programa, o "Cidade In Rock" (rádio Cidade - atual Metrópole), na voz de Leonardo Leão, deu um tom que precisávamos, com entrevistas e músicas também de bandas que faziam parte do cenário underground local. Era comum, nessa época, assisti-lo na companhia de amigos headbangers, no bar de Jonga. Nesse contexto, importante mencionar o patrocínio que consegui, junto à Rádio Transamérica, para um evento, no Pelourinho, com direito a chamadas em meio à sua programação; evento este que de pop rock e mainstream, não teve nada!  


Serafin, eu e Jonga.

Após essa fase, o rádio deixou, para mim, de cumprir esse papel de conteúdo e conhecimento musical, passando a ser apenas um difusor de música nostálgica, notícias e futebol. Entre uma estação (Rádio Educadora) e outra, já me deparei, recentemente, com Cascadura, Álvaro e Eric Assmar, Retrofoguetes e The Dead Bilies tocando, causando-me um mix de surpresa e orgulho.

O principal meio de percepção pessoal musical, nos anos 80, foi a rádio. Ganhei o meu primeiro aparelho, que durou anos, no ano de 1986. Tinha as minhas estações favoritas. No meu diário de 1989, anotações sobre estar ouvindo rádio eram constantes, era um dos meus passatempos favoritos. Ficava de ouvir e gravar. Ainda tenho algumas fitas cassetes com registros dos anos 90. E, sim, já liguei para pedir músicas do Titãs para tocar... E já liguei para dar depoimento sobre o primeiro show de Metal que fui em Salvador. Essas experiências marcaram época.



Fonte:

¹ "Memórias da Ditadura", visitado em 26/07/2019.

Dica de leitura:


Dica de audição:

1. Manifesto ALN (Ação Libertadora Nacional), publicado em 24/06/2014.

Curiosidade:

Algumas músicas que fizeram parte do repertório dessa fase radiofônica, com a palavra "rádio" em suas letras: "Radio Ga Ga", Queen; "Rádio Pirata", RPM; "Com o Rádio Ligado", Rádio Táxi e "Rádio Blá (blá, blá. blá ....eu te amo)", Lobão. Que, se duvidar, até hoje tocam...

26 de julho de 2019

A sétima arte

Àquela época - 1989, àquela idade - 11 anos, eu fazia anotações no meu diário, sem muitos detalhamentos, sem muita carga emotiva envolvida... Além de registrar shows que fui, registrava os filmes que via também. Não articulava criticamente o momento que vivíamos no país. Mencionava nas anotações datas de aniversário e a morte de artistas que eu gostava, e as eleições presidenciais. Àquela época, a minha visão de mundo estava sendo percebida e construída, com alguns registros vagos no papel.

O Cinema, na década de oitenta, éra-nos apresentado, em larga escala, pela ótica da produtividade americana. Havia também a indústria nacional, de onde os empreendimentos voltados para o público infantil garantiam o sucesso de bilheterias. Foi em plena Ditadura Militar, em meio à censura, inclusive, que criaram uma empresa brasileira de filmes - EMBRAFILME, em resposta a anseios nacionais cinematográficos, tendo esta produzido centenas de longa-metragens "que mudaram estética, política e economicamente a história do audiovisual brasileiro." O público espectador, no ano de 1980, chegou a ocupar 35% do mercado nacional¹. Eu fiz parte do público infanto-juvenil. Era espectadora assídua de "Os Trapalhões," tanto do programa humorístico televisionado, quanto das suas produções para o cinema.

Com a crise econômica que assolava o país, a produção cinematográfica diminuiu ao longo dos anos 80, dando espaço para os curtas (filmes de pequena duração), que renderam premiações internacionais ao Brasil². No final dessa década, houve o declínio da EMBRAFILME, que sofreu uma forte campanha contra o cinema ser matéria do Estado. Em 1990, foi extinta. 

Os filmes sempre estiveram presentes na minha vida. Desde pequena gostava de ficar em frente à tela ou da TV ou do Cinema. Com execeção de quando vi "E.T.: O Extraterrestre", no cine ART, do qual tive medo e meu pai saiu comigo da sala. Era uma atividade cultural e precisávamos estar bem vestidos para contemplá-la! A chegada às salas, a fila para comprar o bilhete, a escolha das balas, a pipoca, o refrigerante... A empolgação era tanta, que podia não ter mais lugar para sentar, sentávamos na escada de acesso e de lá não desgrudávamos os olhos da telona! Era comum ver o filme uma, duas, três vezes... Com ou sem idade mínima permitida. Foi assim que pude ver "Dirty Dancing", na companhia de meu irmão, primos e minha tia. Uma vez não, duas, seguidas. 

Com o vinil da trilha sonora de "Dirty Dancing",
em mãos, e Puppy (saudades eternas!).
E falar de cinema é falar também da trilha sonora. Todos os elementos importavam e eram absorvidos através das narrativas. Transcendiam, empolgavam, emocionavam. Não importava se era uma música tema, como a de "Superman", ou um álbum inteiro, como o de "Rocky", ou a música aterrorizante numa cena em "A hora do pesadelo". A composição cinematográfica era feita de música também! E eu deixava-me guiar pelo som, como uma personagem de Walt Disney, de forma mais sutil ou mais intensa, na busca, talvez, da minha própria trilha sonora...

Em 1988, eu levei o Cinema para a sala de aula. Era aula de Artes, tínhamos que fazer uma peça. Eu argumentei com os colegas do grupo formado: vamos encenar algo na linha "Sexta-feira 13"... E assim foi, um fiasco, porém um clássico - "Terça-feira 13". A professora ficou horrorizada: a última cena era a da minha morte, atrás de uma porta, onde só aparecia o meu braço melado de ketchup. Importante dizer que nesse grupo estava a minha amiga que, alguns anos depois, me convidou para irmos comprar vinil no Orixás Center.  Que juntas fomos ao nosso primeiro show, ao vivo e a cores, de Heavy Metal em Salvador. Quem deu a ideia de fazermos um fanzine, "e por que não?!"

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Selecionei alguns apontamentos do meu diário, ano 1989:

03 a 07 de fevereiro - Carnaval na rua, Barra.
16 de março - primeira carteira de identidade (feita no colégio): "melei os meus dedos todos."
02 de abril - "Ray Man" (cinema)
08 de abril - "Tudo o que você quis saber sobre sexo" (TV)
25 de abril - Show de Rod Stewart (TV)
26 de abril - "Garotos Perdidos" (em vídeo cassete)
22 de maio - "Um Peixe Chamado Wanda" (cinema)
23 de maio - "Três Fugitivos (cinema)
10 e 13 de junho - "Sem Licença para Dirigir" (cinema)
30 de junho - "Loucademia de Polícia 6" (cinema)
---------------- 1 ano de morte de Chacrinha
03 de julho - "Os Amotinados do Presídio" (TV)
14 de julho - "U2 - Rattle and Hum" (cinema)
31 de julho - "Lauro Corona morreu"
02 de agosto - "Luiz Gonzaga morreu"
11 de agosto - "Corra que a polícia vem aí" (cinema)
16 de agosto - aniversário de Madonna
21 de agosto - "Raul Seixas morreu às 5h da manhã"
09 e 10 de setembro - "007 - Licença para Matar" (cinema)
18 de setembro - início da novela "Top Model"
14 de outubro - "Karate Kid 3" (cinema)
22 de outubro - "O palco das ilusões" (cinema)
23 de outubro - aniversário de Pelé
26 de outubro - aniversário de Milton Nascimento
27 de outubro - "Batman" (cinema)
15 de novembro - "Dia da eleição para presidente - Collor e Lula vão para a final"
19 de novembro - Cindy Lauper Especial (TV)
25 de novemrbo - "O Grande Dragão Branco" (cinema)
02 de dezembro - "Jornada nas Estrelas V" (cinema)
10 de dezmebro - "Cemitério Maldito" (cinema)
12 de dezembro - "Sessão da tarde com Jerry Lewis"
13 de dezembro - Aniversário de Luiz Gonzaga
14 de dezembro - "De Volta Para o Futuro II" (cinema)
15 de dezembro - "... E o vento levou" - "que faz 50 anos de sucesso" (TV)
                           - "As sete faces do Dr. Lao" (TV)
17 de dezembro - Dia de escolher o novo presidente do Brasil (segundo turno) que vai governar até 1995. Collor eleito.
                           - "Caça-Fantasmas II" (cinema)
18 de dezembro - "Os Trapalhões na Terra dos Monstros" (cinema)
                           - "Peggy Sue - Seu Passado a Espera" (TV)
26 de dezembro - ganhei um violão - influenciada por Brian May (guitarrista do Queen)



Cronologia, ano 1989, apresentada no livro "Movimentos culturais de juventude³":

- Massacre dos estudantes chineses na Praça da Paz Celestial (no centro de Pequim, capital da China), porque pediam reformas políticas e econômicas.

- Derrubada do Muro de Berlim, resultado processo de redemocratização dos países comunistas do Leste europeu.

- Eleições presidenciais no Brasil, após 29 anos.

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Fontes:

¹ "A Embrafilme", por Comunicação CTAv, publicado em 10/10/2008; visitado em 26/07/2019.
² "Cinema do Brasil", Wikipédia, visitado em 26/07/2019.
³ Livro "Movimentos culturais de juventude", de Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte. SP: Moderna, 1990.

Dicas de leitura: 

1. "Quando Os Trapalhões eram os reis do cinema", por Sandro Moser, publicado em 08/08/2014.
2. "Cinemas antigos de Salvador deixam saudade e nostalgia; descaso é o que sobrou deles", por Daniel Silveira, publicado em 30/04/2015.

24 de julho de 2019

Confissões de Pré-Adolescente



Até 1989, os shows locais passavam-me desapercebidos e ainda nem sabia do universo musical do Heavy Metal, no qual ingressaria posteriormente. Com base firmada na geração da primeira edição do Rock In Rio (1985), absorvia, nas mídias televisivas e radiofônicas, o impacto fenomenal de bandas como o Queen - na ponta da língua e nas palmas das mãos, Rod Stweart, Blitz, Lulu Santos, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, etc... Era música, era ao vivo, era show.

Em 1985, o grupo porto-riquenho, Menudo, apresentou-se no dia 02 de março, na Fonte Nova. Eles estavam hospedados no Hotel da Bahia, e eu presenciei, através do vidro de um Corcel 2, uma multidão em frente ao hotel, enquanto seguia para o colégio. Essa ida pro colégio não poderia ser sem um vinil do grupo – “Reaching Out” e/ou “Mania” - debaixo do braço para, na hora do recreio, “Luiz do som” colocar para tocar. Promovi uma tarde de histeria infantil coletiva! Não fui para esse show e, anos depois, vendo a data, foi que me lembrei/entendi o por quê: estávamos de luto. O meu saudoso avô paterno havia falecido num acidente de carro, e seguíamos torcendo pela recuperação plena de meu tio. Vida ceifada de forma trágica, uma perda inestimável para nós, para a nossa família.

Em 1986, era gravado o álbum ao vivo da banda baiana Camisa de Vênus, “Viva”. Eu e meus primos ouvíamos a fita cassete escondidos, no quarto dos fundos da casa de praia em que veraneávamos, devido aos palavrões. No ano seguinte, entregava a fita para uma colega de sala (que se dizia sobrinha de Marcelo Nova) conseguir um autógrafo. Em vão. Em "O Adventista", Marcelo perguntava e apresentava a música: "Tem alguém aí que acredita? O hino da Nova República":

Eu acredito na manutenção da ordem pública
Eu acredito na Nova República
Eu acredito, haha!
Eu acredito
Eu acredito nos livros da estante
Eu acredito em Flávio Cavalcante (jornalista)
Eu acredito, eu acredito
Não vai haver amor neste mundo nunca mais!

Percebia o Rock Nacional. Em meio a músicas infantis e MPB, o Rock, com a sua combinação harmoniosa e expressiva de sons e letras, dava o tom daquela década. 

Alguns shows que tenho registrados em diário - Titãs (28/MAI/1989) e Ultraje a Rigor & Uns e Outros (10/JUL/1989), ambos na Concha Acústica. Era meu pai (fã de Luiz Gonzaga) que ia comigo, meu irmão e meus primos para esses eventos. Do Titãs, o clima rocker mais adulto, as roupas pretas, a performance de Arnaldo Antunes que vibrava para além do palco, a animação de poder ver, ouvir e participar cantando e gritando para o Brasil inteiro ouvir:

Bichos, saiam dos lixos
Baratas, me deixem ver suas patas
Ratos, entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado

O Ultraje a Rigor trazia o lado irreverente, descompromissado com as suas letras divertidas, "Sexo!", "Nós vamos invadir a sua praia", "Inútil" e o grupo Uns & Outros, banda de uma música só e tocada algumas vezes - "Carta aos Missionários", davam, na sequência, o sentido de uma vida de ida a shows... Aquele clima era bom! As músicas eram muito boas, significavam, exalavam juventude, vida. Havia diversão, havia emoção, era empolgante, era insubordinado, era revolucionário. 

No mês de novembro de 1989, há ainda registros de shows que fui no Clube Espanhol e no Colégio Antônio Vieira - as "mostras de som". Na TV Globo, assistia o Especial de Cindy Lauper (19/NOV/1989). Os shows ao vivo e a cores só estavam ganhando forma...  

Ao fim do ciclo oitentista, Raul Seixas faleceu em 21 de agosto. Lembro-me, perfeitamente, de uma apresentação dele, no programa do Chacrinha, cantando "Cowboy Fora da Lei." Na letra, uma "contestação da versão oficial divulgada pela imprensa, de que o futuro presidente do Brasil tinha coincidentemente adoecido antes da posse"¹: 

 Cowboy Fora Lei
Eu não preciso ler jornais 
Mentir sozinho eu sou capaz

Para quem não se lembra ou não sabe, o Brasil iniciava um trajeto democrático, após 21 anos sob o Regime Militar, com a eleição indireta de Tancredo Neves, que, por problemas de saúde, veio a falecer, confirmado, então, ao cargo de presidente da Nova República, o vice, José Sarney. Havia o medo de uma crise política. Da volta dos militares. Circulavam "teorias de conspiração alegando que Tancredo, na realidade, tinha sido assassinado a mando do regime ditatorial"². E Raul cantou. Minha mãe, chorosa, fez eu mudar de canal para ela acompanhar notícias sobre a morte de Tancredo Neves: o Brasil estava de luto e com medo.

Na Nova República, no ano de 1988, era promulgada a nossa Constituição Federal, instituído, portanto, o Estado democrático de direito e a república presidencialista. Em 1989, houve a realização das eleições diretas, após 29 anos, para Presidente da República, onde foram para o segundo turno Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo, sendo este, eleito. 

Na rádio, as músicas mais tocadas eram "Pais e Filhos", do Legião Urbana; "I´ll be there for you", de  Bon Jovi; "Patience" e "Paradise City", do Guns N´Roses; "If I Could Turn Back Time", de Cher e "Like a Prayer", de Madonna. A década de 90 prometia, as estações já vinham mudando, e muitos shows estavam por vir!


Fonte ¹ e ²: "A história e as origens de Cowboy Fora-da-Lei", por Flávio Magalhães. 


Dica para leitura: "Os ecos de 1989 na eleição de 2018", por Jean-Philip Struck, em 24/07/2019.