16 de agosto de 2019

The Show Must go On and On


Parte Um

Uma amiga da época de escola convidou-me para conhecer umas lojas de vinil no Centro da cidade. O nome do shopping era Orixás Center e as “lojas de heavy” (como eu chamava), Bazar e Maniac; e uma outra loja, localizada ali pelas redondezas, era a Coringa. Chegávamos a pé a um novo universo que mudaria o meu contato com a música. Televisão, rádio e trilhas sonoras passariam a ser fontes secundárias. Agora, emergia uma espectadora 'independente' inserida num contexto adverso, underground.

Não raras vezes, fui a essas lojas na companhia de meu pai e irmão ou primos. Eu tinha 13 anos. A entrada da Maniac assustava um pouco devido à quantidade de gente que ficava sentada do lado de fora da loja. E as perguntas feitas ao meu irmão sobre o Iron Maiden, por eu ter comprado algo da banda, também. "Conhecer o que ouve", talvez, tenha sido a primeira lição apreendida no cenário underground. Mais uns meses e eu faria parte desse grupo freqüentador das lojas, sentando-me no bar “Amarelinho”, exatamente em frente à Bazar, porém, sem fazer perguntas...

Comprava acessórios e vinis. A percepção desse novo mundo ganhava um olhar próprio, um gosto particular, e o cenário underground apresentava-se apropriado em meio às suas crenças, atitudes, valores e comportamentos: fazia sentido estar ali. Vivia um misto de modificação hormonal, emocional, de estrutura de pensamento, de transição da infância para adolescência e tudo isso embalado pela música, num estado de desobediência, insubordinação e independência ambivalente.

Meu apelido, herdado em 1988 de uma vizinha de mesmo nome, assumiu uma nova escrita, idealizada por uma colega de sala. A mesma quem me deu a letra da música “Footloose”, de Kenny Loggins. Eu gostava muito de saber as letras das músicas. Era comum comprar, nas bancas de revistas, revistinhas que traziam não só as letras, mas cifras de música para violão (e eu estava aprendendo a tocar teclado; o violão seguia encostado na parede). Ainda busco por letras de músicas em site de buscas, afinal, música também é letra! E foi assim que consegui, nos anos 90, com Ronaldo Pitanga, a letra de “Smoke On The Water” (Deep Purple), música interpretada pela sua banda Síncope. Meu apelido “Dibi”, agora já praticamente um sobrenome, virou “Dibby”. 

Continuava freqüentando shows, às vezes com colegas, a maior parte com primos. Na casa de shows Kripton, vi bandas como a baiana Utopia (que pensei conhecer apenas da rádio e não dos palcos também). No Centro de Convenções, vi a primeira banda estrangeira apresentar-se, ao vivo e a cores, A-ha, na data de 05 de junho. Desse show, que teve um extenso atraso devido à falta de luz, saí com uma foto de Morten e de Axl Rose, compradas nas mãos de um vendedor ambulante, e com uma revistinha (distribuída gratuitamente por uma escola de inglês) que continha as letras das músicas, parte do setlist do A-ha. Dali uns meses, eu estaria pegando dos palcos alguns setlists de apresentações de bandas locais...


Foto para o Bluêrgh! Zine.
Inclusive, setlists da banda do colega de meu irmão, André Moisés. Ele, sabendo que eu gostava de rock e já algo de heavy metal, emprestou-me uma fita VHS com videoclipes de várias bandas, na verdade, clássicas bandas. Foi importantíssimo ter tido esse contato na época! André era baterista da Mercy Killing e, logo mais, eu usaria o nome dele e o de Léo, baixista (amigo de meu primo) para poder frequentar ensaios e shows mais undergounds. Entrevistei André, na época em que tive o fanzine. 

E, falando em meu irmão, em 05 de maio (e se a data não foi essa, perdoem-me, sigo o diário), teve um show na Concha Acústica que meus pais não me deixaram ir. A minha memória associou à proibição, programas televisionados sobre tribos urbanas; porém, revendo o diário, acho que foi algo mais simples: era um domingo, aniversário de meu irmão e o show era de uma banda de thrash metal, de nome “Sepultura”. Claro que eu não iria. Um tempo depois, meu pai, seguiria para o trabalho, no Fórum Ruy Barbosa, ao som do álbum “Arise”, com uma patch do Sepultura costurada na sua calça jeans rasgada...

No dia 24 de novembro, revendo o acervo da Folha de SP para contextualizar, saiu a seguinte nota: "Freddie Mercury, 45, vocalista do grupo 'Queen', confirmou ontem que está com Aids e pediu, em Londres, união contra a doença." No dia seguinte, a notícia da sua morte. Iniciava o ano atemorizada com a Guerra do Golfo e o terminava assombrada com a Aids, doença que fazia mais uma vítima. Sem mais Mercury (07/09/1946 – 24/11/1991), mas com a certeza de que o show tinha que continuar.