22 de agosto de 2019

Correntes e couro


Se, até então, a rádio, a televisão, o cinema (mais o acervo familiar) apresentavam-me músicas, no cenário underground, as capas de discos “se” mostravam, assim como o próprio nome das bandas; além disso, amigos e os funcionários das lojas indicavam o que ouvir e as bandas baianas, ao acrescentarem em seu repertório covers, cumpriam esse papel também. Havia um “intercâmbio cultural” de ideias, de produtos, de música, de arte.

"Nightfall"
Um amigo ligou-me e me disse que tinham lhe indicado um álbum épico que eu tinha que ouvir: “Nightfall”, do Candlemass. Um marco na minha vida! Esse amigo era Ricardo, baixista da Shadows, banda de heavy metal baiana que estava pra nascer. E quem lhe indicou foi Leonardo Leão, vocalista. Através da Shadows conheci bandas como o Running Wild, com o cover de “Evil Spirit”, do álbum “Branded and Exiled”. O Candlemass, eu vi ao vivo no Wacken Open Air (W.O.A., 2005, Alemanha) e em São Paulo (2006). Já vivenciando o mundo virtual, cheguei a conversar em chat privado com Meassiah Marcolin, vocalista da banda. O Running Wild pude acompanhar, ao vivo, no W.O.A (2018), aproveitando-me da tecnologia virtual para vê-los, já que não viajam de avião e, infelizmente, não nos ‘encontramos’ ao vivo e a cores.

E quanto mais underground, melhor. As bandas eram um achado, pertenciam apenas ao nosso meio. Era difícil conseguir material e gravávamos fitas cassetes uns para os outros, pegávamos material emprestado, comunicávamo-nos pelo telefone, nas lojas, nos eventos. Alguns clipes passavam em programas na TV, além de alguns shows ou especiais. Para acessar a MTV aqui, tinha que ser via antena UHF ou fitas VHS gravadas para mim pela minha amiga e colega paulista, Adriana Moreira "Madonna". Tinha a assinatura da revista Rock Brigade e acesso a outras revistas como Top Rock e algumas estrangeiras, o que permitia conhecer mais alguma coisa para além dos álbuns. Só o tempo e a tecnologia mudariam esse acesso, tornando tudo disponível ao grande público, desde uma rara demo-tape ao contado com membros de uma banda. E quando refiro-me a material, era tanto das bandas mais conhecidas, quanto as de garagem.

Além das lojas Bazar e Maniac no Orixás Center, tinha a Coringa e depois abriu a Blood, ambas situadas no Espaço Tuiuti. Tinha também a Kaya, Mutantes e umas outras lojas ali pelo Centro que não me recordo os nomes... Em uma loja que ficava próximo à ladeira da Kaya, eu comprei vinis usados e o vendedor foi uma figura importante em me apresentar músicas fora do Metal, como Johnny Winter. Eduardo Slayer, vocalista da banda The Cross, abriu uma loja em Brotas: Metal Forever; e, quando a Blood fechou as suas portas, no local passou a funcionar a Metal Castle. E foi fora do circuito underground, no início dos anos 90, que eu conheci o então vocalista da banda Mercy Killing, Bruno, que trabalhava na loja de discos ‘A Modinha’, num shopping. Estava tudo interligado e todos os caminhos trilhavam um consumo fidedigno musical.

 Headhunter D.C.
Na porta da loja Bazar, conheci o vocalista da Headhunter D.C., Sérgio Baloff, e Lyo, à época, baterista da Slavery. Foi uma honra tê-los conhecido. Eu e minha amiga tínhamos acabado de comprar o recém lançado debut álbum e clássico, “Born... Surfer... Die”. O vinil da Slavery, eu compraria, meses depois, na, então, nova loja, “Sound & Vision”, no bairro Costa Azul (depois foi para a Barra). E foi lá que votei para melhor banda, vocalista, guitarrista, etc., infelizmente não tenho anotado nada referente a isso, mas era só sobre músicos e bandas do nosso cenário. Vários vinis que tenho, vale dizer, têm na parte de dentro escrito o nome da loja na qual foi adquirido, achava importante o registro. Todas as lojas marcaram época, e, hoje, segue na resistência mercadológica tradicional, a Bardos Bardos Casa da Trinca, situada no bairro do Rio Vermelho.

Recentemente, à leitura desse blog, um conhecido da época relatou-me que eu fui, talvez, a primeira pessoa a ter no formato CD, o “Let Us Pray”, do Vital Remains. Banda que pude entrevistar, via e-mail, quando o fanzine Words Of Metal ganhou um formato online. Fui uma das primeiras a aparecer com o “Candlemass LIVE”; amigos queriam comprá-lo de mim. Meu primeiro CD mesmo, eu nem tinha CD player ainda: “Queen at Wembley”, duplo. Outro conhecido da cena, lembrou-se das tardes de bate-papo na Blood. Na Blood, recordo-me também de ter comprado dois vinis da banda Sanctuary: “Refuge Denied” e “Into the Mirror Black”. Álbuns que estavam reservados para um comprador que, há dias, não aparecia para pegá-los... Quando eu estava no ponto de ônibus, avistei ao longe um cabeludo vindo correndo em minha direção e ainda ofegante lamentou: “cheguei tarde para pegar esses álbuns. Você pode me emprestar para eu gravar?” Trocamos telefones e dias depois emprestaria os álbuns a Sacha. E depois eu descobriria que ele cantava muito, inclusive lembrava a entonação de Warrel Dane (07/03/61 – 13/12/17)...! Ele era vocalista da banda Scarlet e Disarmonic Rising. Saudoso Sacha, morto precocemente num acidente. Fui ao seu enterro no Campo Santo. Outro que perdemos na cena, também nos anos 90, num acidente, foi Júnior, da Bazar.  O underground baiano enlutava-se, cedo.

Cartaz de ato contra Bolsonaro, julho/2019.
As blusas de banda eram encomendadas pelo Correio, e a primeira que usei durante muitos anos até ficar cinza, foi uma do Motörhead, "March ör Die". Inclusive, fui com ela vê-los em 96, no Monsters of Rock, em São Paulo - SP. Lá, conheci a tão sonhada Galeria do Rock! Era um mundo de loja de roupas, vinis e acessórios! Deixando o meu endereço para mala direta em uma loja, o funcionário perguntou-me: "e na Bahia tem gente branca do cabelo liso?" Nem poderia imaginar que, no futuro próximo, o país estaria dominado por preconceitos e discursos de ódio, inclusive ditados pelo próprio presidente da República. E muitos paulistas destacar-se-iam nessa postura.... 

A vestimenta resumia-se a blusas de bandas e calças jeans rasgadas manualmente. Em determinado momento, escrevi um trecho de letra de uma música da Mercy Killing na calça. E a calça boca de sino, influenciada pela banda Dr. Cascadura, minha mãe conseguiu que uma costureira a fizesse. Saias hippies reverenciavam o Festival Woodstock.  O calçado era tênis. Ou sandálias de dedo mesmo... Minha mãe procurava em lojas dos padres no Centro da cidade, crucifixos... Minha bijuteria era adquirida na mão de hippies, principalmente na Praça da Piedade. Não usava correntes e couro, material difícil de achar em Salvador inclusive, apenas cantava junto com a música mesmo...


No século seguinte, a Maniac reabriria as suas portas e novamente, eu e amigos, freqüentaríamos a loja, não só consumindo produtos, mas indo a eventos por ela realizados e patrocinados, e ouvindo muito Metal. Ajudei com a organização do show do Angra, com Eduardo Falaschi nos vocais. Anos antes, a banda Angra, com André Matos (14/09/71 – 08/06/2019), apresentou-se em terras soteropolitanas e, na tarde de autógrafos, levei a primeira edição do meu fanzine, Bluêrgh!, para eles. Aos sábados, era certo ouvirmos as coletâneas SP Metal.

Nos anos 90, a loja Coringa também realizou e patrocinou eventos, inclusive o meu fanzine, à época rebatizado de Words of Metal. E eu também patrocinei um show realizado pela loja, no Pelourinho de Nazaré: Rotting Christ, Mystifier, Lethal Course (SP) e Shadows. Ainda em 1995, com o Bluêrgh!Zine, as lojas Coringa e Mutantes patrocinariam dois eventos que arrisquei fazer no Hotel Pelourinho, que, na época, cedia espaço para bandas de Metal tocarem. Lá teve, por exemplo, o Viper, com Pit Passarell nos vocais, foi muito bom! Em 2012, o Viper retornou aos palcos, no Groove Bar, com André Matos, vocalista da formação original, na turnê "To Live Again", em comemoração aos 25 anos do disco "Soldiers of Sunrise" - foi histórico! Para o show que fiz, convidei bandas como a Noxius, Mercy Killing, Crotalus, Gridlock, Síncope e Shadows. Foi uma experiência incrível, mas para nunca mais me meter com produção!


---------------------------------------------------------------------------------


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

P.s.: Grata a Sérgio Baloff, Paulo Camurugi, Serafin Vila, Merlim, Leão e Rogério Bigbross por me ajudarem na lembrança perdida na memória! 


Links: