Se, até então, a rádio,
a televisão, o cinema (mais o acervo familiar) apresentavam-me músicas, no
cenário underground, as capas de discos “se” mostravam, assim como o próprio
nome das bandas; além disso, amigos e os funcionários das lojas indicavam o que
ouvir e as bandas baianas, ao acrescentarem em seu repertório covers, cumpriam
esse papel também. Havia um “intercâmbio cultural” de ideias, de produtos, de
música, de arte.
Um amigo ligou-me e me disse
que tinham lhe indicado um álbum épico que eu tinha que ouvir: “Nightfall”, do
Candlemass. Um marco na minha vida! Esse amigo era Ricardo, baixista da
Shadows, banda de heavy metal baiana que estava pra nascer. E quem lhe indicou foi Leonardo Leão, vocalista. Através da Shadows conheci
bandas como o Running Wild, com o cover de “Evil Spirit”, do álbum “Branded and
Exiled”. O Candlemass, eu vi ao vivo no Wacken Open Air (W.O.A., 2005, Alemanha) e em São
Paulo (2006). Já vivenciando o mundo virtual, cheguei a conversar em chat
privado com Meassiah Marcolin, vocalista da banda. O Running Wild pude
acompanhar, ao vivo, no W.O.A (2018), aproveitando-me da tecnologia virtual para vê-los, já que não viajam de avião e, infelizmente, não nos ‘encontramos’ ao vivo e a cores.
E quanto mais
underground, melhor. As bandas eram um achado, pertenciam apenas ao nosso meio.
Era difícil conseguir material e gravávamos fitas cassetes uns para os outros,
pegávamos material emprestado, comunicávamo-nos pelo telefone, nas lojas, nos eventos. Alguns clipes passavam
em programas na TV, além de alguns shows ou especiais. Para acessar a MTV aqui, tinha que ser via antena UHF ou fitas VHS gravadas para mim pela minha amiga e colega paulista, Adriana Moreira "Madonna". Tinha a assinatura da revista
Rock Brigade e acesso a outras revistas como Top Rock e algumas estrangeiras, o
que permitia conhecer mais alguma coisa para além dos álbuns. Só o tempo e a
tecnologia mudariam esse acesso, tornando tudo disponível ao grande público,
desde uma rara demo-tape ao contado com membros de uma banda. E quando refiro-me a material, era tanto das bandas mais conhecidas, quanto as de garagem.
Além das lojas Bazar e
Maniac no Orixás Center, tinha a Coringa e depois abriu a Blood, ambas situadas
no Espaço Tuiuti. Tinha também a Kaya, Mutantes e umas outras lojas ali pelo Centro que
não me recordo os nomes... Em uma loja que ficava próximo à ladeira da Kaya, eu
comprei vinis usados e o vendedor foi uma figura importante em me
apresentar músicas fora do Metal, como Johnny Winter. Eduardo Slayer, vocalista da banda The Cross, abriu uma loja em Brotas: Metal Forever; e, quando a Blood fechou as suas portas, no local passou a funcionar a Metal Castle. E foi fora do circuito
underground, no início dos anos 90, que eu conheci o então vocalista da banda
Mercy Killing, Bruno, que trabalhava na loja de discos ‘A Modinha’, num shopping. Estava tudo interligado e todos os caminhos trilhavam um consumo fidedigno
musical.
Na porta da loja Bazar,
conheci o vocalista da Headhunter D.C., Sérgio Baloff, e Lyo, à época,
baterista da Slavery. Foi uma honra tê-los conhecido. Eu e minha amiga tínhamos
acabado de comprar o recém lançado debut álbum e clássico, “Born... Surfer...
Die”. O vinil da Slavery, eu compraria, meses depois, na, então, nova loja,
“Sound & Vision”, no bairro Costa Azul (depois foi para a Barra). E foi lá que votei para melhor banda, vocalista, guitarrista, etc., infelizmente não tenho anotado nada referente a isso, mas era só sobre músicos e bandas do nosso cenário. Vários vinis que tenho, vale dizer, têm na
parte de dentro escrito o nome da loja na qual foi adquirido, achava importante
o registro. Todas as lojas marcaram época, e, hoje, segue na resistência mercadológica tradicional, a Bardos Bardos Casa da Trinca, situada no bairro do Rio Vermelho.
Recentemente, à leitura
desse blog, um conhecido da época relatou-me que eu fui, talvez, a primeira
pessoa a ter no formato CD, o “Let Us Pray”, do Vital Remains. Banda que pude
entrevistar, via e-mail, quando o fanzine Words Of Metal ganhou um formato
online. Fui uma das primeiras a aparecer com o “Candlemass LIVE”; amigos
queriam comprá-lo de mim. Meu primeiro CD mesmo, eu nem tinha CD player ainda:
“Queen at Wembley”, duplo. Outro conhecido da cena, lembrou-se das tardes de bate-papo
na Blood. Na Blood, recordo-me também de ter comprado dois vinis da banda Sanctuary:
“Refuge Denied” e “Into the Mirror Black”. Álbuns que estavam reservados para
um comprador que, há dias, não aparecia para pegá-los... Quando eu estava no
ponto de ônibus, avistei ao longe um cabeludo vindo correndo em minha direção e
ainda ofegante lamentou: “cheguei tarde para pegar esses álbuns. Você pode me
emprestar para eu gravar?” Trocamos telefones e dias depois emprestaria os
álbuns a Sacha. E depois eu descobriria que ele cantava muito, inclusive
lembrava a entonação de Warrel Dane (07/03/61 – 13/12/17)...! Ele era vocalista
da banda Scarlet e Disarmonic Rising. Saudoso Sacha, morto precocemente num acidente. Fui ao seu
enterro no Campo Santo. Outro que perdemos na cena, também nos anos 90, num
acidente, foi Júnior, da Bazar. O
underground baiano enlutava-se, cedo.
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| Cartaz de ato contra Bolsonaro, julho/2019. |
A vestimenta resumia-se a blusas de bandas e calças jeans rasgadas manualmente. Em determinado momento, escrevi um trecho de letra de uma música da Mercy Killing na calça. E a calça boca de sino, influenciada pela banda Dr. Cascadura, minha mãe conseguiu que uma costureira a fizesse. Saias hippies reverenciavam o Festival Woodstock. O calçado era tênis. Ou sandálias de dedo mesmo... Minha mãe procurava em lojas dos padres no Centro da cidade, crucifixos... Minha bijuteria era adquirida na mão de hippies, principalmente na Praça da Piedade. Não usava correntes e couro, material difícil de achar em Salvador inclusive, apenas cantava junto com a música mesmo...
No século seguinte, a Maniac reabriria as suas portas e novamente, eu e amigos, freqüentaríamos a loja, não só consumindo produtos, mas indo a eventos por ela realizados e patrocinados, e ouvindo muito Metal. Ajudei com a organização do show do Angra, com Eduardo Falaschi nos vocais. Anos antes, a banda Angra, com André Matos (14/09/71 – 08/06/2019), apresentou-se em terras soteropolitanas e, na tarde de autógrafos, levei a primeira edição do meu fanzine, Bluêrgh!, para eles. Aos sábados, era certo ouvirmos as coletâneas SP Metal.
Nos anos 90, a loja
Coringa também realizou e patrocinou eventos, inclusive o meu fanzine, à época rebatizado
de Words of Metal. E eu também patrocinei um show realizado pela loja, no
Pelourinho de Nazaré: Rotting Christ, Mystifier, Lethal Course (SP) e Shadows. Ainda
em 1995, com o Bluêrgh!Zine, as lojas Coringa e Mutantes patrocinariam dois
eventos que arrisquei fazer no Hotel Pelourinho, que, na época, cedia espaço
para bandas de Metal tocarem. Lá teve, por exemplo, o Viper, com Pit Passarell
nos vocais, foi muito bom! Em 2012, o Viper retornou aos palcos, no Groove Bar, com André Matos, vocalista da formação original, na turnê "To Live Again", em comemoração aos 25 anos do disco "Soldiers of Sunrise" - foi histórico! Para o show que fiz, convidei bandas como a Noxius, Mercy Killing, Crotalus, Gridlock,
Síncope e Shadows. Foi uma experiência incrível, mas para nunca mais me meter
com produção!
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P.s.: Grata a Sérgio Baloff, Paulo Camurugi, Serafin Vila, Merlim, Leão e Rogério Bigbross por me ajudarem na lembrança perdida na memória!
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