24 de julho de 2019

Confissões de Pré-Adolescente



Até 1989, os shows locais passavam-me desapercebidos e ainda nem sabia do universo musical do Heavy Metal, no qual ingressaria posteriormente. Com base firmada na geração da primeira edição do Rock In Rio (1985), absorvia, nas mídias televisivas e radiofônicas, o impacto fenomenal de bandas como o Queen - na ponta da língua e nas palmas das mãos, Rod Stweart, Blitz, Lulu Santos, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, etc... Era música, era ao vivo, era show.

Em 1985, o grupo porto-riquenho, Menudo, apresentou-se no dia 02 de março, na Fonte Nova. Eles estavam hospedados no Hotel da Bahia, e eu presenciei, através do vidro de um Corcel 2, uma multidão em frente ao hotel, enquanto seguia para o colégio. Essa ida pro colégio não poderia ser sem um vinil do grupo – “Reaching Out” e/ou “Mania” - debaixo do braço para, na hora do recreio, “Luiz do som” colocar para tocar. Promovi uma tarde de histeria infantil coletiva! Não fui para esse show e, anos depois, vendo a data, foi que me lembrei/entendi o por quê: estávamos de luto. O meu saudoso avô paterno havia falecido num acidente de carro, e seguíamos torcendo pela recuperação plena de meu tio. Vida ceifada de forma trágica, uma perda inestimável para nós, para a nossa família.

Em 1986, era gravado o álbum ao vivo da banda baiana Camisa de Vênus, “Viva”. Eu e meus primos ouvíamos a fita cassete escondidos, no quarto dos fundos da casa de praia em que veraneávamos, devido aos palavrões. No ano seguinte, entregava a fita para uma colega de sala (que se dizia sobrinha de Marcelo Nova) conseguir um autógrafo. Em vão. Em "O Adventista", Marcelo perguntava e apresentava a música: "Tem alguém aí que acredita? O hino da Nova República":

Eu acredito na manutenção da ordem pública
Eu acredito na Nova República
Eu acredito, haha!
Eu acredito
Eu acredito nos livros da estante
Eu acredito em Flávio Cavalcante (jornalista)
Eu acredito, eu acredito
Não vai haver amor neste mundo nunca mais!

Percebia o Rock Nacional. Em meio a músicas infantis e MPB, o Rock, com a sua combinação harmoniosa e expressiva de sons e letras, dava o tom daquela década. 

Alguns shows que tenho registrados em diário - Titãs (28/MAI/1989) e Ultraje a Rigor & Uns e Outros (10/JUL/1989), ambos na Concha Acústica. Era meu pai (fã de Luiz Gonzaga) que ia comigo, meu irmão e meus primos para esses eventos. Do Titãs, o clima rocker mais adulto, as roupas pretas, a performance de Arnaldo Antunes que vibrava para além do palco, a animação de poder ver, ouvir e participar cantando e gritando para o Brasil inteiro ouvir:

Bichos, saiam dos lixos
Baratas, me deixem ver suas patas
Ratos, entrem nos sapatos
Do cidadão civilizado

O Ultraje a Rigor trazia o lado irreverente, descompromissado com as suas letras divertidas, "Sexo!", "Nós vamos invadir a sua praia", "Inútil" e o grupo Uns & Outros, banda de uma música só e tocada algumas vezes - "Carta aos Missionários", davam, na sequência, o sentido de uma vida de ida a shows... Aquele clima era bom! As músicas eram muito boas, significavam, exalavam juventude, vida. Havia diversão, havia emoção, era empolgante, era insubordinado, era revolucionário. 

No mês de novembro de 1989, há ainda registros de shows que fui no Clube Espanhol e no Colégio Antônio Vieira - as "mostras de som". Na TV Globo, assistia o Especial de Cindy Lauper (19/NOV/1989). Os shows ao vivo e a cores só estavam ganhando forma...  

Ao fim do ciclo oitentista, Raul Seixas faleceu em 21 de agosto. Lembro-me, perfeitamente, de uma apresentação dele, no programa do Chacrinha, cantando "Cowboy Fora da Lei." Na letra, uma "contestação da versão oficial divulgada pela imprensa, de que o futuro presidente do Brasil tinha coincidentemente adoecido antes da posse"¹: 

 Cowboy Fora Lei
Eu não preciso ler jornais 
Mentir sozinho eu sou capaz

Para quem não se lembra ou não sabe, o Brasil iniciava um trajeto democrático, após 21 anos sob o Regime Militar, com a eleição indireta de Tancredo Neves, que, por problemas de saúde, veio a falecer, confirmado, então, ao cargo de presidente da Nova República, o vice, José Sarney. Havia o medo de uma crise política. Da volta dos militares. Circulavam "teorias de conspiração alegando que Tancredo, na realidade, tinha sido assassinado a mando do regime ditatorial"². E Raul cantou. Minha mãe, chorosa, fez eu mudar de canal para ela acompanhar notícias sobre a morte de Tancredo Neves: o Brasil estava de luto e com medo.

Na Nova República, no ano de 1988, era promulgada a nossa Constituição Federal, instituído, portanto, o Estado democrático de direito e a república presidencialista. Em 1989, houve a realização das eleições diretas, após 29 anos, para Presidente da República, onde foram para o segundo turno Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo, sendo este, eleito. 

Na rádio, as músicas mais tocadas eram "Pais e Filhos", do Legião Urbana; "I´ll be there for you", de  Bon Jovi; "Patience" e "Paradise City", do Guns N´Roses; "If I Could Turn Back Time", de Cher e "Like a Prayer", de Madonna. A década de 90 prometia, as estações já vinham mudando, e muitos shows estavam por vir!


Fonte ¹ e ²: "A história e as origens de Cowboy Fora-da-Lei", por Flávio Magalhães. 


Dica para leitura: "Os ecos de 1989 na eleição de 2018", por Jean-Philip Struck, em 24/07/2019.